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CONTO O SOL DO MEIO-DIA

A luz voraz de um Sol ininterrupto, desde as seis horas, iluminava aquele vilarejo ao norte da Itália. Mesmo com a luz forte, o frio era cortante. Acostumados com a temperatura amena, os moradores do vilarejo começavam suas rotinas mesmo antes do Sol surgir por detrás das montanhas de plantações de uvas.

Um carro de um modelo mais antiquado para a época cortava a via do cemitério da cidade, que ficava sob árvores em um jardim verdejante, em declínio para o vilarejo. O veículo estacionou na porta de entrada do vale dos mortos, e de lá saíram um homem e uma mulher. Estavam bem-vestidos para a ocasião. Ali fariam uma visita, naquele cemitério onde residia o corpo do pai da moça, mulher chamada Casandra Alves. A moça se entristecia muito por seu pai não estar presente em sua vida e o visitava todos os meses. Seu marido, Tomás Alberto, era completamente apaixonado por ela.

Tomás ficou na porta fumando um cigarro, enquanto a moça entrou no terreno. Uma estreita via de pedrinhas a estava levando ao túmulo do pai, caminho que ela sempre fazia chorando. Quando chegou, olhou o nome do homem escrito em profundidade na lápide, Antonio Barros Alves. Ela se sentou na grama e começou a acariciar as folhas verdejantes que brotavam naquela terra de mortos. Conversou algumas coisas com o velho, que dali, não podia ouvi-la e ficou sentada, aos prantos, só imaginando que ele poderia estar com ela.

Em dado momento, ela se levantou e começou a voltar para a porta do cemitério. Um farfalhar chamou sua atenção e quando olhou, viu um pássaro que tinha acabado de aterrissar bem onde ela estava sentada. Ela voltou e encontrou o marido na porta, já finalizando o segundo cigarro. Ele sorriu para ela, jogou o cigarro no chão, pisando nele, e juntos foram para o carro de mãos dadas.

Eles partiram e deixaram o vilarejo, indo para a estrada principal, onde o movimento de carros era muito maior. Tinha um evento de pais da escola do filho naquele dia. Passariam na casa da mãe dela, onde estava o garoto, pegá-lo-iam e iriam para o evento. Isso se o que ocorreu a seguir não acontecesse.

Eles conversavam, quando um carro surgiu do nada na contramão, ao ultrapassar um caminhão, e colidiu com o carro deles em alta velocidade. A pancada foi tão forte que ergueu o carro do casal às alturas. Casandra gritava, enquanto o carro capotava. Ela encarou o marido, que a tinha fixa em seus olhos, quando um pedaço de metal se desprendeu e passou no pescoço da mulher como um estilete. O sangue esguichou e foi lavando o carro, o homem e a própria dona do líquido, enquanto o carro ia parando de capotar.

O veículo parou de ponta-cabeça, o homem estava desacordado. A mulher estava lúcida, mas logo perderia os sentidos quando sangue suficiente deixasse seu corpo. Ela tentou falar com o marido desmaiado, enquanto se engasgava com o próprio sangue. Tentou se desprender, sujando tudo o que tocava de vermelho, mas já não tinha forças para isso. Logo ela foi perdendo os sentidos, enquanto o sangue deixava seu corpo e ia lavando o teto do carro que naquele momento era a parte do chão do veículo. Ela e o marido estavam de cabeça para baixo, fazendo com que todo o sangue deixasse seu corpo rapidamente. Casandra morreu, enquanto o marido nem pôde se despedir.

Mas ele acordou, uma dezena de minutos depois. Quando voltou a si, notou-se de cabeça para baixo e soltou o próprio cinto. Quando caiu de costas, viu o cabelo da esposa encharcado e então ele chamou pelo nome dela. Ela não respondeu e ele a desprendeu com cuidado para que ela não batesse em baixo. Ele a segurou e a pôs no teto do carro, que naquele momento era o chão e estava lavado com tanto sangue que por um momento o homem não soube dizer de onde vinha. Mas logo ele viu o corte no pescoço da esposa, que tinha deixado um rastro de sangue em seu rosto e cabelos. Ele gritou, pois foi nítido para ele que ela estava morta.

Por um momento ele chorou; mas não se passou muito tempo e ela começou a mexer os dedos das mãos. Ele não sentiu e continuou chorando com ela no colo. Mas os lapsos nos músculos da mulher começaram a aumentar e então ele sentiu um movimento. Ele se afastou dela para encará-la e ela o estava encarando com os olhos estáticos.

Tomas perguntou se ela estava bem, pois tinha a intenção de levá-la ao médico imediatamente. Mas ela não respondeu e começou a respirar forte, esganiçado, mas forte, como se suas vias aéreas estivessem interrompidas e ela quisesse respirar mesmo assim. Ela não tirava os olhos dele e ele não parava de perguntar se ela estava bem, não acreditando como ela poderia estar respirando. Até a pele da mulher já estava fria com o tanto de sangue que ela perdeu.

Com os vidros do carro quebrados, ele saiu e puxou a mulher pelo vão, mesmo sem se preocupar com algum osso quebrado que ela tivesse. O grau do machucado no pescoço era muito mais preocupante do que aquilo. Ele a posicionou sentada no asfalto e encostada no carro, de um modo em que a cabeça dela ficou tombada, mas ainda assim mantendo aquela respiração esganiçada.

Dois carros estacionaram quando viram o acidente. O carro amarelo que tinha batido estava capotado a cem metros de distância deles e pegava fogo no momento. Não tinha o que ser feito pelo motorista, se ele estivesse lá dentro ainda.

Um dos homens de um dos carros que parou abordou Tomás, que estava todo ensanguentado, perguntando se ele estava bem. O homem disse que o sangue não era dele e que tinham que ajudar sua esposa. O motorista então foi rapidamente socorrer Casandra, que o encarou fundo nos olhos quando ele se abaixou para falar com ela. Ele tentou tocá-la para deitá-la, pois sabia que aquela não era uma boa posição para um acidentado, mas ela o mordeu no braço. Ele foi rápido em tirá-lo, deixando apenas alguns arranhões dos dentes da moça em seu antebraço.

Ele reclamou que ela o mordeu, mas entendeu que ela poderia estar alucinando pelo acidente e não ficou nervoso com isso. Em seguida, ele disse que tinha que chamar uma ambulância e assim eles fizeram. Demorou cerca de vinte minutos e a mulher continuou exatamente do mesmo jeito, sem se mexer. Os socorristas chegaram e a primeira coisa que fizeram foi medir quão crítico estava o estado do coração dela. Mas nesse momento, ela mordeu um deles também. O motorista que fora mordido antes não sentiu a necessidade de avisá-los, mas acabou vendo que aquilo não era só com ele. Porém, o socorrista não conseguiu tirar o braço e homens tiveram que ajudá-lo a se soltar. Sendo tarde, um pedaço de carne ficou na boca da moça que acabou de mastigar e engoliu. Seu próprio marido ficou com nojo daquilo. O socorrista teve que ser socorrido, pois estava perdendo muito sangue e a mulher acabou ficando em segundo plano.

Já com o braço enfaixado, eles começaram novamente a dedicar atenção a ela. Mas agora com mais cuidado. Ela tentou morder de novo o mesmo homem, mas ele estava esperto e ambos conseguiram deitá-la para que ela fosse posta na maca. Foi nesse momento que eles descobriram que ela tinha sofrido uma fratura exposta na coluna cervical. Por isso, ela não conseguia mexer abaixo do pescoço.

A moça foi levada ao hospital com seu marido como acompanhante, dentro da ambulância. O socorrista estava com dores e seguiu junto para conseguir melhores atendimentos no hospital, pois a mordida havia sido profunda.

O outro motorista que também tinha sido mordido entrou em seu carro sentindo fortes dores de cabeça. Ele pegou um remédio que ficava no estoque do carro, tomou, acelerou o automóvel e partiu para sua casa na cidade grande.



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